Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006

VEJAM BEM A FOTO DA RITA


TRATA-SE DE UM DASAPARECIMENTO OCORRIDO NA PASSADA SEXTA-FEIRA DIA 17/01/2006 POR VOLTA DAS 9 HORAS DA MANHÃ, JUNTO AO CAFE INTERNACIONAL EM MATOSINHOS NA PARAGEM DO METRO.



Contactos (horário laboral):
Jose Fortuna
Grupolis Transitários, Lda
Rua do Castanhal, Nº29
Zona Industrial da Maia 1 - Sector II
4475-122 Gemunde
Portugal



Tel: +351 229 470 290


Fax: +351 229 966 718


jfortuna@grupolis.pt

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

Nova Morada

O "Laboratório do Erro" passou para uma nova morada.
Agora está em "acerca do ser e restantes coisas virtuais", junto com mais alguns blogs.
Este novo espaço exibe na sua página principal apenas o último post.
Para acesso aos posts restantes existem links em "categorias" na faixa do lado esquerdo ou no fim do post.
Existem posts com um botão "Ler mais". Esse botão serve... para isso mesmo.
Por fim, os comentários não exigem registo no blog.com, por isso, estejam à vontade!
Obrigado a todos,
Um abraço.
CT

Segunda-feira, Fevereiro 06, 2006

Anima II

As pessoas cujo desejo é unicamente a auto-realização, nunca sabem para onde se dirigem. Não podem saber. Numa das acepções da palavra, é obviamente necessário, como o oráculo grego afirmava, conhecermo-nos a nós próprios. É a primeira realização do conhecimento. Mas reconhecer que a alma de um homem é incognoscível é a maior proeza da sabedoria. O derradeiro mistério somos nós próprios. Depois de termos pesado o Sol e medido os passos da Lua e delineado minuciosamente os sete céus, estrela a estrela, restamos ainda nós próprios. Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma?
Oscar Wilde, in 'De Profundis'

Anima

Que emprego dou às energias da minha alma neste instante? Pôr-me esta questão a cada momento, sondar que preocupação se instaura agora nessa parte de mim que aveza nome de guia interior e de quem me chega a alma que tenho agora. Alma de criança?, de adolescente?, de mulheruca?, de algum tirano?, de besta de carga?, de besta-fera?
Marco Aurélio (Imperador Romano), in 'Pensamentos'


Olhava a flor como se, pela primeira vez, tivesse conhecimento dela. Estava com ela não mão haviam para aí duas horas e só agora, nesse instante, se apercebia da sua forma, cor, textura, odor, existência. Fixou-lhe a imagem e cerrou os olhos, com força, obtendo o seu negativo instantâneo que iniciava a sua marcha por dentro dos olhos, latejante, fugidio. Tornou a abri-los e fixou a parede amarelada que tinha em frente e lá estava a flor, uma vez mais em negativo, a deslocar-se num diagonal imparável, agora pelo tecto, já pelo chão sujo até que, finalmente, se desvanece mesmo no local onde umas botas se mexem nervosamente batendo calcanhares, dobrando as pontas, pontapeando ocasional e levemente o balcão de espera.
Pousou a flor e procurou o maço de tabaco na bolsa, por entre todos os artefactos que por lá se encontravam e, já que ali estava, pegou antes no espelho e retocou a pintura. Concentrou-se especialmente nos lábios. Gostava dos seus lábios. Não eram excessivamente carnudos mas eram muito definidos e deixavam, pela sua forma natural, entrever os dentes brancos e perfeitamente alinhados. Definiu-lhes ainda mais a forma com o lápis após o que se concentrou nos olhos escuros e grandes. Olhos de quem vê, de quem quer e tem, olhos decididos como ainda hoje durante a tarde, quando despediu o Sr. Tavares. Olhou-o fixamente e explicou-lhe, sempre muito calmamente, que os seus serviços já não se adequavam às necessidades da Empresa, que iria, de qualquer forma sair compensado e, quando se levantou e lhe apertou firmemente a mão, já não sentia sequer aquele desconforto que aparece disfarçado no sorriso mecânico do “Sr. Tavares, como está? Sente-se, por favor…”
Levantou-se e acendeu um cigarro que começou a fumar andando de um lado para o outro, os saltos altos marcando a espera… toc, toc, toc, toc… toc, toc, toc, toc… Mas quando poderia ir embora? Que maçada!
Voltou a sentar-se pensando que, fosse como fosse, não era mais que ninguém. Quer dizer: a espera parece ser coisa normal nestes locais, como um ritual em que o tempo aumenta ou desvanece a importância do assunto consoante atributos ainda não completamente definidos.
Olhou o cartaz colado na vidraça da porta. Um cartaz qualquer acerca da segurança das habitações durante o período de férias. Aconselhava os cidadãos a avisarem a Polícia da sua ausência para que esta aumentasse a frequência de passagem à sua porta. Pois, pois… como se adiantasse alguma coisa.
Ainda no verão passado a sua vizinha, Paula Mendonça (coisa estranha, aquela mulher…) ficou sem grande parte das pratas e coisas por demais valiosas durante as férias. Foi a ver-se e o ladrão morava ali na zona. A Polícia, ao que parece, nem sequer se dignou ir verificar a porta de entrada lateral, a que dá para o jardim, aberta durante mais de uma semana.
Pegou na flor. Olhou-a uma vez mais acariciando-lhe as pétalas, sentindo o seu toque de veludo já qualquer coisa seco mas, ainda assim, reconfortante. Renato oferecera-lhe a flor durante o jantar e, passados momentos e duas ou três taças de champanhe, ter-lhe-ia dado um beijo nos lábios com o inevitável “e se fossemos para outro lado?”. E foram.
Foi aí que a coisa se descontrolou. Como costume, refrescou-se com um duche e, saindo do banho com o corpo ainda húmido, olhou Renato que aguardava languidamente na cama. Frente a ele, despiu-se lentamente, o seu corpo a reluzir na semi-obscuridade do quarto do motel e avançou lentamente cama dentro. Renato, surpreendido, ficou aparvalhado, sem saber o que fazer, sem saber o que pensar e, a páginas tantas, saltou cama fora berrando enfurecido. “Calma!”, disse-lhe, “porque não te acalmas? Vamos conversar sobre isto…”. Renato não queria saber. Tinha agora uma cara de poucos amigos e vinha na sua direcção com os punhos cerrados.
Não teve outro remédio senão enfiar-lhe o candeeiro cabeça abaixo… uma e outra vez.
Aparentemente Renato está já recuperado mas estes imbróglios da lei e da Polícia são difíceis de desatar. Foi por isso que ligou a Laura, a sua secretária. Ela estava habituada a desenrolar estes novelos complexos e, no seu caso particular, já o tinha ajudado algumas vezes.
Mas demorava sempre algum tempo. É incómodo estar ali, gente a passar olhando com ar acusatório, gente a olhar com ar provocador… como se fosse o quê? Como se olha uma galdéria qualquer?
Enquanto cheirava a flor, Laura apareceu. “Desta vez a coisa é mais complicada. O sujeito apresentou queixa e, ao que parece, vamos mesmo a tribunal amanhã de manhã.” Estas coisas enervam qualquer pessoa e desafiou “O tanas! Vou mas é para casa, tomar um banho e descansar. Se me querem em tribunal por causa de um qualquer bruto de quem me defendi que me esperem amanhã…” mas o seu braço era já agarrado por um guarda. A flor caiu ao chão e, pisada pela bota do polícia que insistia, ali ficou a desenhar uma forma qualquer no chão sujo.
Laura, sempre pacientemente, disse “Mas tenha calma, por favor, tudo está a ser feito para que saia daqui com a maior brevidade. De qualquer forma, não vai para uma cela. Falei com o Comandante e ele providenciou um aposento retirado onde poderá ficar à vontade.” Pegou num saco que lhe entregou, dizendo ainda “Ah! E, por favor, mude de roupa. Não quer aparecer assim vestido no tribunal, pois não Senhor Antunes?”

Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

O Homem e o Absoluto II

Who wants to Live Forever
(Queen)


There's no time for us
There's no place for us
What is this thing that builds our dreams, yet slips away from us

Who wants to live forever
Who wants to live forever . . . . . ?

There's no chance for us
It's all decided for us
This world has only one sweet moment set aside for us

Who wants to live forever
Who wants to live forever

Who dares to love forever
When love must die

But touch my tears with your lips
Touch my world with your fingertips
And we can have forever
And we can love forever
Forever is our today

Who wants to live forever
Who wants to live forever
Forever is our today
Who waits forever anyway ?

O Homem e o Absoluto

Segundo a expressão de Lavelle, a morte dá «a todos os acontecimentos que a precederam esta marca do absoluto que nunca possuiriam se não viessem a interromper-se». O absoluto habita em cada uma das nossas empresas, na medida em que cada uma se realiza de uma vez para sempre e não será nunca recomeçada. Entra na nossa vida através da sua própria temporalidade. Assim o eterno torna-se fluido e reflui do fim ao coração da vida. A morte já não é a verdade da vida, a vida já não é a espera do momento em que a nossa essência será alterada. O que há sempre de incoactivo, de incompleto e de constrangedor no presente não é já um sinal de menor realidade.
Mas então a verdade de um ser já não é aquilo em que se tornou no fim ou a sua essência, mas o seu devir activo ou a sua existência. E se, como Lavelle dizia em tempos, nos julgamos mais perto dos mortos que amámos do que dos vivos, é porque já nos não põem em dúvida e daqui para o futuro podemos sonhá-los a nosso gosto. Esta piedade é quase ímpia. A única recordação que lhes diz respeito é a que se refere ao uso que faziam de si próprios e do seu mundo, o acento da sua liberdade na incompletude da vida. O mesmo frágil princípio faz-nos viver e dá ao que fazemos um sentido inesgotável.
Maurice Merleau-Ponty, in 'O Elogio da Filosofia'


Do alto do monte, Metatron olhava os campos semeados, as cidades borbulhantes, os oceanos plácidos e não sentia amor. Estava decidido a manter-se afastado dos outros pois não queria conspurcá-los com aquele sentimento mesquinho que o avassalava.
Serafim, sefirá Kether tantas vezes confundido com Daat, confusão normal entre coroa e conhecimento na árvore da vida, encarregue de transmitir o amor do Pai aos demais, sentia-se impotente. E revoltado.
Olhou em volta e observou a serenidade de todos os que continuavam o seu trabalho de devoção. Todos eles, Kether, Daat, Chochmá, Biná, Chessed, Guevurá, Tiféret, Netzach, Hod e Yessod – Serafins, Querubins e Tronos por um lado, Dominações, Potências e Virtudes por outro e ainda Principados, Arcanjos e Anjos por final, labutavam, cada qual à sua maneira, pelo bem estar do Homem, esse animal que o Pai teria teimado criar para sua satisfação, quem sabe tedioso de uma eternidade esvoaçante num universo que sabia de cor.
Metatron sentia-se repudiado.
Chamou os Príncipes de cada coro a concílio e, escondidos, conferenciaram.
Veio ele, príncipe dos Serafins e encarregado, como já disse, da transmissão do amor aos demais, veio Haziel, príncipe dos Querubins, que guardava e transmitia os mistérios divinos e a sabedoria, compareceu também Tsaphkiel, conhecido noutras bandas como Auriel ou Cassiel, príncipe dos Tronos, encarregues de transmitir as mensagens e ordens de Deus aos demais Anjos.
Vieram também Tsadkiel, ou Saquiel, ou Uriel, príncipe das Dominações que cuidavam que os demais seres celestes cumprissem as ordens divinas, Camael ou Samuel, príncipe das Potências que regulam os elementos terrestres e veio Rafael, das Virtudes responsáveis pela tradução da vontade do Pai.
Compareceram ainda Haniel, príncipe dos Principados e protector dos líderes da Sociedade, Mikael ou Miguel, Arcanjo e executor das grandes tarefas de Deus e, por fim, Gabriel, príncipe dos Anjos que levam as mensagens aos Homens.
Metatron olhou-os a todos, um por um, tentando divisar o que lhes pairava na alma, que alma eram eles, luz de luz, após o que declarou não ser mais capaz de cumprir a sua missão de levar-lhes o amor do Pai.
Os outros entreolharam-se estupefactos e disseram “Mas tu, Metatron, preferido dos preferidos, eleito dos eleitos, escolhido entre os escolhidos para transportares todo o Amor do Amor, logo tu, te deixas avassalar por tal impotência? Que se passa, mau amigo?”
Metatron chorava.
“Mas não vêem vocês que Ele os ama mais que a nós? Não reparam vocês que não fazem mais que correr atrás dos incautos e que, de cada vez que não conseguem que o vosso beijo, sussurro, a vossa mão os ampare, Ele troveja em fúria e ameaça de expulsão?” Começou a haver desconforto na Assembleia dos Anjos.
O Homem, esse animal mortal, escolhido para prazer do Pai, ocupava cada vez mais espaço na sua vida e, não raras vezes, Ele sentia-se atraiçoado. Mas pensava serem as mortais bestas desprovidas de conhecimento suficiente que lhes permitisse ver mais e descarregava a sua frustração nos seus seres outrora preferidos.
“Mas que fascínio por seres pútridos de desgraça tem o Pai?” continuou Metatron. Mas que amor tem ele a tão abomináveis seres que se desprezam entre eles e que se recusam a ouvir-nos, a ouvi-Lo?”
Miguel objectou dizendo que, não raras vezes, era enviado a executar um ou outro que descarrilavam do Plano Divino mas logo Haziel retorquiu que Metatron tinha razão. “Essa besta, o Homem, não é capaz de compreender o que quer que lhe digam”, disse, ao que Haniel e Gabriel anuíram de imediato.
Somente Cassiel discordou. E disse: “O meu Pai fez o homem à sua imagem. Não me interessa para quê, o seu Amor por eles é o meu. Eu e os meus exércitos estamos a seu lado”, e retirou-se.
Com ele retiraram-se Uriel e Camael.
No instante seguinte as armas eram contadas e os exércitos chamados.
Metatron chamava:
Vehuiah, Jeliel, Elemiah, Mahasiah, Lehael, Achaiah, a mim!
Haziel Cahethel, Aladuah, Laoviah, Hahahiah, Yeslel, Mebahel, Hariel, Hekamiah, a mim!
Haniel, Daniel, Hahasiah, Iamamaiah, Nithael, Mebahiah, Poiel, a mim!
Gabriel, Damabiah, Manakel, Ayel, Habuhiah, Rochel, Yabamiah, Haiaiel, Mumiah, a mim!
Rafael gritava, mãos na cabeça, em desespero. Não sabiam o que aconteceria? Não conheciam eles a fúria do Pai? Mereceria Ele tal desprezo?
Fugiu para junto de Deus a dar-lhe a notícia e já Cassiel chamava:
Lauviah, Caliel, Leuviah, Pahaliah, Nelchael, Ieiaiel, Melahel, Haheuiah, pelo Pai!
Uriel, Nith-Haiah, Haaiah, Ierathel, Seheiah, Reyel, Omael, Lecabel, Vasahiah, por Deus!
Camael, Iehuiah, Lehahiah, Chavakiah, Menadel, Aniel, Haamiah, Rehael, Ieiazel, pelo Criador!
Mikael, Nemamiah, Ieialel, Harahel, Mitzrael, Umabel, Ia-Hel, Anauel, Mehiel, pelos Céus, pelo Pai, pela sua Criação.
Entretanto, Deus, na companhia das Tiféret, Virtudes, observava.
Pediu a Rafael que o acompanhasse numa volta pelo Universo e que deixasse Hahahel à frente de Mikael, Veiliah, Yeliah, Sealiah, Ariel, Asaliah, Mihael e Vehuel a guardar os Homens.
E disse: “Sabes, Rafael? Afinal, quem não compreendeu foram os Anjos. Os Homens, conscientes da sua mortalidade, sempre se surpreenderam uns aos outros. Matam, esfolam, submetem, castigam e, no entanto, são capazes de se reunir contra quem quer que os ameace. Nem que sejam vocês.” Continuou com Rafael que esvoaçava em sua volta.
“Os Anjos”, disse Deus, “ainda não compreenderam a imortalidade. Não vêem que os fiz na perfeição e que hão-de combater-se uns aos outros pela eternidade. Morrer vezes sem conta mortes imagináveis apenas por um imortal e acordar vivos para sofrerem logo no instante seguinte. Hão-de se sentir empalados vezes sem conta e não aprender com isso.”
Voltou-se para Rafael, uma lágrima escorria-lhe. “Vai, Rafael e leva-lhes a minha última mensagem: diz-lhes que os não quero por minha companhia, que renego a sua criação. Vou embora daqui, vou para a Terra. Humano me vou tornar e padecer da inexistência de mim. Vai, Rafael, e de seguida torna-te Homem, tu e os teus seguidores. A Morte, ofereço-ta junto com o que de mais valoroso existe na vida mortal, junto com tudo o que aprendi com o Homem todo este tempo.”
E desapareceu.
Rafael olhou para baixo e viu um menino nascer numa maternidade escondida no meio do bulício de uma cidade qualquer. Olhou para o lado e viu o sofrimento e a morte que haveriam de se propagar pelos séculos em constantes mutações do céu. Coisas que o Homem nunca haveria de ver ou aperceber-se.
Chamou os restantes e, juntos, cumpriram a vontade do Pai.
Houveram uns quantos Homens a nascer nesse dia, Homens iguais aos outros.
Homens que iriam lutar mano a mano com a vida, esquecidos do que fora outrora a imagem de um Deus.
Homens que iriam, contudo, continuar a adorar a Inexistência Sagrada enquanto, lá no alto, sangue alheado do mundo e do Criador, revoltava o céu em gritos lancinantes de dor para toda a eternidade.

Quinta-feira, Janeiro 12, 2006

O Frio lá fora II

Dentro do homem existe um Deus desconhecido: não sei qual, mas existe - dizia Sócrates soletrando com os olhos da razão, à luz serena do céu da Grécia, o problema do destino humano. E Cristo com os olhos da fé lia no horizonte anuveado das visões do profeta esta outra palavra de consolação - dentro do homem está o reino dos céus. Profundo, altíssimo, acordo de dois génios tão distantes pela pátria, pela raça, pela tradição, por todos os abismos que uma fatalidade misteriosa cavou entre os irmãos infelizes, violentamente separados, duma mesma família! Dos dois pólos extremos da história antiga, através dos mares insondáveis, através dos tempos tenebrosos, o génio luminoso e humano das raças índicas e o génio sombrio, mas profundo, dos povos semíticos se enviam, como primeiro mas firme penhor da futura unidade, esta saudação fraternal, palavra de vida que o mundo esperava na angústia do seu caos - o homem é um Deus que se ignora.

Grande, soberana consolação de ver essa luz de concórdia raiar do ponto do horizonte aonde menos se esperava, de ver uma vez unidos, conciliados esses dois extremos inimigos, esses dois espíritos rivais cuja luta entristecia o mundo, ecoava como um tremendo dobre funeral no coração retalhado da humanidade antiga! Os combatentes, no maior ardor da peleja, fitam-se, encaram-se com pasmo, e sentem as mãos abrirem-se para deixar cair o ferro fratricida. Estendem os braços... somos irmãos !
Primeiro encontro, santo e puríssimo, dos prometidos da história! Manhã suave dos primeiros sorrisos, dos olhares tímidos mas leais desses noivos formosíssimos, que o tempo aproximava assim para o casamento misterioso das raças!
Não há no mundo palácio de rei digno de lhes escutar as primeiras e sublimes confindências! Só um templo, alto como a cúpula do céu, largo como o voo do desejo, puro como a esperança do primeiro e inocente ideal humano!
Esse templo tiveram-no. Naquela palavra de dois loucos se encerra tudo. Nenhuma montanha tão alta, aonde a olho nu se aviste Deus, como o voo desta frase, a maior revelação que jamais ouvirá o mundo - dentro do homem está Deus.
Antero de Quental, in 'Prosas da Época de Coimbra'

O Frio lá fora

- Qual o objectivo do homem em relação ao universo?
Desenterrar conceitos escondidos? Somos mineiros cósmicos em busca das Leis que nos explicam como entidades.
Ou somos aqueles bocadinhos de poeira cósmica que têm o pesado fardo de terem noção da sua própria existência.
Diogo R., D-tector in “
Esclarecimentos, precisam-se

E a barca, feita de estilhaços do que tinha um dia sido a Humanidade, continuava a vaguear às cegas no escuro cósmico do que um dia tinha sido o Universo conhecido.
Sem comandante e sem destino, continuou a jornada em direcção a um Sol apagado há muito, a uma estrela outrora flamejante em todo o seu esplendor mas vazia de conteúdo por estes dias.
Os homens tinham, em tempos, ousado tomar-se a si próprios como imagem de Deus e assim quiseram tomar nas mãos a sua própria Criação.
Reinventaram-se a si próprios em encarnações divinas, tomaram na alma ensinamentos por eles inventados, levaram os Livros à letra como se fossem estes a sua tábua de salvação.
Mas mesmo ainda inconscientes da sua fragilidade, numa atitude arrogante, proclamaram-se a razão do Universo, o motivo último para que este existisse. O Espaço infinito era assim a sua coutada, o seu meio de expansão, e procuraram mais além: tesouros, animais exóticos, planetas de cores garridas e exuberantes, floras inebriantes e fêmeas de beleza inimaginável.
Nada encontraram.
Tudo o que viram foi um ser minúsculo, impotente, egoísta, sempre a contar com os seus deuses inventados que já não lhes ofereciam protecção.
Em vão tentaram ainda conseguir conforto nas almas falecidas, mestres que, do lado de lá do mundo visto e sentido, os guiariam na tormenta.
Nada mais encontraram para além daquele Sol apagado que, contudo, os atraía inexoravelmente para o seu centro.
Era essa a Lai, a grande Lei.
Foi por esses dias que, tarde demais, os Homens aprenderam a existir.

Aviso à Navegação


Recebi um e-mail de um leitor (que agradeço desde já) em que este pergunta qual a lógica de todos os posts terem uma parte II.
Bom... lógica, não terá forçosamente. Este é um Laboratório do Erro.
No entanto, existe um objectivo.

O primeiro objectivo é o de colmatar a nítida falta de inspiração do escriba.
Não tenho muito tempo, por estes dias, para pensar em coisas que não as práticas, as de ganhar dinheiro.
Depois, isto é um Laboratório.
Se na primeira parte eu pego num mote (hipótese) e a coloco à "experiência" obtendo os sofríveis resultados do meu trabalho que ficam desde logo disponíveis, o passo seguinte será, obviamente, fazer a contra-prova ou cruzar o resultado com um "grupo de controlo".
Isso é a parte II do post.

Mas é claro que tudo isto é mentira.
O único motivo porque o faço é mesmo por gostar dos textos e poder copiá-los e ocupar espaço com coisas que acho engraçadas ou interessantes.

A todos, um abraço.

Sábado, Janeiro 07, 2006

O texto, finalmente.II

Não se é escritor por se ter preferido dizer certas coisas, mas por se ter preferido dizê-las duma certa maneira. E o estilo faz, evidentemente, o valor da prosa. Mas deve passar despercebido. Uma vez que as palavras são transparentes e que o olhar as atravessa, seria absurdo meter entre elas vidros despolidos. Aqui, a beleza é apenas uma força doce e insensível.
Num quadro, brilha antes de mais nada; num livro, esconde-se, age por persuasão como o encanto duma voz ou dum rosto, não obriga, faz curvar sem que se dê por isso e pensa-se ceder aos argumentos quando afinal se é solicitado por um encanto imperceptível. A cerimónia da missa não é a fé, ela dispõe a isso; a harmonia das palavras, a sua beleza, o equilíbrio das frases, dispõem as paixões do leitor sem que ele dê por isso, ordenam-nas como a missa, como a música, como uma dança; se acaba por as considerar em si mesmas, perde o sentido, apenas restam oscilações aborrecidas.
Jean-Paul Sartre, in 'Situações II'

O texto, finalmente.

Tudo o que nos acontece, tudo o que falamos ou nos é narrado, tudo quanto vemos com os nossos próprios olhos ou sai da nossa língua ou entra pelos nossos ouvidos, tudo aquilo a que assistimos (e por que, portanto, somos de certo modo responsáveis), há-de ter um destinatário fora de nós, e esse destinatário vai sendo seleccionado por nós em função do que acontece ou nos dizem ou então dizemos nós. Cada coisa deverá ser contada a alguém - nem sempre a mesma pessoa, não necessariamente -, e cada coisa vai-se colocando de parte como quem folheia e aparta e vai destinando prendas futuras numa tarde de compras.
Tudo deve ser contado pelo menos uma vez, ainda que, como havia determinado Rylands com a sua autoridade literária, deva ser contado segundo os tempos. Ou, o que vem a dar no mesmo, no momento justo e às vezes nunca mais se não se soube reconhecer ou se deixou passar deliberadamente esse momento preciso. Esse momento apresenta-se às vezes (a maioria das vezes) de maneira imediata, inequívoca e compulsiva, mas muitas outras vezes apresenta-se apenas confusamente e ao fim de lustros ou décadas, como acontece com os grandes segredos. Mas nenhum segredo pode ou deve ser guardado para sempre do conhecimento de toda a gente, é forçoso que encontre pelo menos um destinatário uma vez na vida, uma vez na vida desse segredo.
É por isso que algumas pessoas reaparecem.
É por isso que nos condenamos sempre por aquilo que dizemos. Ou por aquilo que nos dizem.

Javier Marías, in 'Todas as Almas'

O texto, finalmente. O texto último que, contando a minha vida, contaria as vidas todas, desvelaria, por fim, os segredos da insondável existência e dos seus princípios.
Contaria como eu e a Humanidade progredimos passo a passo, cúmplices em toda a percepção das coisas e seria eu, assim, a inteligência indubitável, o externo às causas de tudo, o observador impassível que tudo vê, que tudo compreende. Finalmente, a aparência de deus desvelada num texto.
No meu texto.


APRENDENDO COM BRUTUS 1 SOBRE A VAIDADE HUMANA
"Dave Striver loved the university. He loved its ivy -covered clocktowers, its ancient and sturdy brick, and its sun-splashed verdant greens and eager youth. He also loved the fact that the university is free of the stark unforgiving trials of the business world -- only this isn't a fact: academia has its own tests, and some are as merciless as any in the marketplace. A prime example is the dissertation defense: to earn the PhD, to become a doctor, one must pass an oral examination on one's dissertation.
Dave wanted desperately to be a doctor. But he needed the signatures of three people on the first page of his dissertation, the priceless inscriptions which, together, would certify that he had passed his defense. One of the signatures had to come from Professor Hart.
Well before the defense, Striver gave Hart a penultimate copy of his thesis. Hart read it and told Striver that it was absolutely first-rate, and that he would gladly sign it at the defense. They even shook hands in Hart's book-lined office. Dave noticed that Hart's eyes were bright and trustful, and his bearing paternal.
At the defense, Dave thought that he eloquently summarized Chapter 3 of his dissertation. There were two questions, one from Professor Rodman and one from Dr. Teer; Dave answered both, apparently to everyone's satisfaction. There were no further objections.
Professor Rodman signed. He slid the tome to Teer; she too signed, and then slid it in front of Hart. Hart didn't move.
``Ed?" Rodman said.
Hart still sat motionless. Dave felt slightly dizzy.
``Edward, are you going to sign?"
Later, Hart sat alone in his office, in his big leather chair, underneath his framed PhD diploma."


Este texto não foi escrito por um humano, mas sim por uma máquina, um computador do projecto Brutus 1. O tema foi a "traição". Os seus autores consideram que "AI is moving us toward a real-life version of the movie Blade Runner, in which, behaviorally speaking, humans and androids are pretty much indistinguishable."

O texto, finalmente, a face de deus que se revela.


Terça-feira, Janeiro 03, 2006

Pensar Ruptura II

The Future Now
Peter Hammill

Here we are, static in the latter half
of the twentieth century
but it might as well be the Middle Ages,
there'll have to be some changes
but how they'll come about foxes me.
I want the future now,
I want to hold it in my hands;
all men equal and unbowed,
I want the promised land.

but that doesn't seem to get any closer,
and Moses has had his day...
the tablets of law are an advertising poster,
civilisation here to stay
and this is progress?
You must be joking!
Me, I'm looking for any kind of hope.
I want the future now,
I want to see it on the screen,
I want to break the bounds
that make our lives so mean.

Oh, blind, blinded, blinding hatred
of race, sex, religion, colour, country and creed,
these scream from the pages of everything I read.
You just bring me oppression and torture,
apartheid, corruption and plague;
you just bring me the rape of the planet
and joke world rights at the Hague.
Oh, someday the Millennium!
But how far is someday away?
I want the future now
I'm young, and it's my right.
I want a reason to be proud.
I want to see the light.
I want the future now,
I want to see it on the screen,
I want to break the bounds:
make life worth more than dreams.

Pensar Ruptura

A nossa razão deve ser considerada como uma espécie de causa cujo efeito natural é a verdade; mas um efeito tal que pode ser facilmente evitado pela intrusão de outras causas e pela inconstância das nossas faculdades mentais. Dessa maneira, todo o conhecimento degenera em probabilidade; essa probabilidade é maior ou menor segundo a nossa experiência da veracidade ou da falsidade do nosso entendimento e segundo a simplicidade ou a complexidade da questão.
David Hume, in 'Tratado da Natureza Humana'

A nós, simples humanos, mortais como tudo o que tem vida, foi-nos oferecido um cérebro “hi-tech” e de “alta cilindrada” para usar ininterruptamente. É-nos, senão impossível, extremamente difícil não pensar.
Esta forma de vida, a pensante, num animal que como qualquer outro passa a vida tentando arranjar as melhores condições para respirar, comer, defecar, dormir, foder, parir, não é, de todo, a mais confortável. Para um ser humano o tempo é diferente, mede-se pelo passado, presente e futuro, sendo que um deles existe para deixar de existir logo no preciso momento em que surge. O presente é uma metáfora do tempo, uma efémera que se extingue naquele tempo entre os tempos, que nem um pulsar chega a ter pois que, quando está para ter, já o teve. O presente é triste.
Para qualquer outro animal com um cérebro de menor capacidade, o passado extingue-se deixando apenas as marcas da ancestralidade no ADN que as transforma em instintos e coisas semelhantes, pré-formatadas e capazes de os guiar no presente, esse presente na realidade e que é o seu tempo.
Para nós, a História é a sala de aulas e o Futuro é o laboratório.

Em nós, o Passado persegue-nos e o Futuro é uma derrota, a julgar pelo que a História nos ensina.
Se pensarmos que, enquanto seres sociais que somos, objecto de uma das maiores cadeias de regras conhecidas, com todas as especificidades de cada uma das culturas, não temos conseguido, apesar de tudo, erradicar males que continuam a prejudicar a nossa própria raça, pensamos também que o desenvolvimento do Mundo, tal como o conhecemos, está dependente da ruptura.
Se atentarmos nos avanços sociais realmente humanitários que a História regista, havemos de reparar facilmente que quase todos e cada um deles se deve à ruptura de uma qualquer convenção da época e que, no contexto em que se realizaram, apresentavam todos eles uma visão do futuro, não se limitando à resolução dos problemas do presente da altura – quantas vezes ignorando-os – e apostando, pelo contrário, numa capacidade inventiva e adaptativa que se julgam características do Homem.
Então, a ruptura, enquanto fenómeno erradicador do conformismo, é necessária e saudável.
Mas, no momento corrente, em que consiste a ruptura?

pertenço a uma fabulosamente chamada “Geração X”.
Sou um belo exemplar do espécime apanhado entre dois fogos numa importante altura da vida, a entrada na adolescência. Sou um dos tipos que, de repente e sem aviso, deixaram a trilogia de Fátima, Futebol e Fado para adoptarem, se não a da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, travarem conhecimento com a Paz, Pão e Educação (só há Liberdade a sério quando houver…, dizia a música.).
Então, a partir daí, o pensamento de pessoas como eu nunca mais foi o mesmo. Construiu-se a Democracia, tomaram-se alguns atalhos que nem sempre se revelaram os correctos, mas conseguimos instaurar um tipo de pensamento que, dada a altura e o contexto, apesar de permissivo, era solidamente fiel ao que se denominava na altura de “amplas liberdades” e que tinha, senão como ideólogos, pelo menos como dos principais activistas, putos como eu era na altura, já com os 15 anitos, e que militavam por essas “Juventudes” fora: a UEC, a JS, a JSD, a JC, enfim, juventudes de todas as cores e de todas as formas, acreditando cada uma delas, à sua maneira, que o Futuro a nós pertencia. Pelo meu lado, na altura, acreditava num futuro em que os amanhãs cantavam, passe a redundância…
Essas juventudes, como qualquer juventude, levaram caminhos distintos em cada um dos indivíduos mas semelhantes na generalidade.
Uns, como eu, resolveram que necessitariam de começar a trabalhar pois a Igualdade ainda não tinha chegado para eles e haviam despesas que tinham que ser pagas. Era normal começar a trabalhar aos 15 anos (e, ao que parece, ainda não é tão anormal como isso) e um puto que conseguisse entrar numa grande empresa, como no meu caso, tinha um futuro garantido. Outros, como muitos, optaram e tiveram a possibilidade de prosseguir estudos e são hoje pessoas habilitadas ao exercício de funções “superiores”. Entre uns e outros, alguns continuariam as suas actividades políticas sendo que alguns deles ainda hoje as exercem, poucos deles, no entanto, acreditam ainda numa ideologia que defendiam: a política é, para estes, um emprego.
Qualquer um de nós é, entretanto, confrontado com a realidade actual: uma realidade cada vez mais sem presente ou passado válido que lhe permitam a construção de um futuro para si próprios ou para os seus filhos.
Na realidade, o presente que vivemos é um tempo em crise de valores essenciais em que a Liberdade assumiu outras formas, muitas delas não tão libertárias como isso.
Vivemos num tempo em que a maior parte das proclamações de Liberdade vêm de anúncios comerciais ou séries televisivas, de músicas rap ou romances light.
Os nossos filhos são putos que passam a maior parte do tempo entre um monitor de computador ou televisão e grupos de putos como eles que sustêm uma atitude de passividade, revolta muda, autista, de contra-poder sem causa. Rebeldes? Não. Inadaptados? Sim.
Fomos nós que os fizemos assim.
A ruptura, essa, ficou pelo caminho.

É que, a bem da educação e da preparação para o futuro dos nossos filhos, somos muitas vezes obrigados a colidir com os nossos próprios princípios no respeitante às liberdades básicas que tanto defendemos. E as coisas da liberdade pura com que tanto sonhamos deixaram de ser tão bonitas assim.
Doença, terrorismo, violência familiar, delinquência juvenil, são agora vocabulário comum.
Por outro lado, quintas de celebridades, esquadrões gay, pelotões de tropa fandanga, são os lenitivos propostos por governantes para quem a máxima governativa se traduz em “pão e circo”.
Controlo, vigilância, repressão, são as formas de combate encontradas e que, disfarçadas, surgem como uma constante em toda a actividade social.
O que quero dizer com isto é que, hoje, a ruptura, é para o homem comum uma necessidade de confrontar a liberdade com a disciplina, a maior parte das vezes em total confusão de sentidos.
A ruptura é hoje uma contra-revolução.

O Homem foi sempre um poço de contradições. O seu cérebro, essa super-máquina, dispara em todas as direcções e, contrariamente aos restantes animais, é obrigado a constantes esforços conscientes, estudados meticulosamente, de readaptação.
Muitas das vezes, o retrocesso é um mal necessário na opinião de uns. Na opinião de outros, a revolução não pode parar. O retrocesso de uns e a revolução de outros são sempre formas de ruptura com o Presente, esse ilustre inexistente. São sempre por comparação a um passado que nos ensina e a um futuro que nos desafia e, mais tarde ou mais cedo, nos desilude. Como a moda.
O Presente fica sempre, de uma forma ou de outra, de fora.
Talvez esteja aí o segredo, no Tempo.
Talvez o segredo do Mundo esteja na utilização que damos ao relógio e ao calendário. Talvez seja tão somente a percepção do tempo ou da nossa passagem por este, já que o tempo não nos liga nenhuma. Anda sempre para a frente, depressa ou devagar – só ele sabe – mas inexoravelmente. E a nossa vida é curta. É somente um tempo entre outro tempo.
As revoluções, as rupturas, as coisas que afectam a nossa geração e as próximas, vão continuar a existir. Os retrocessos também.
A bem dos Povos, espero.

O cão, esse, ao que parece continua a correr atrás da cauda.